O volume de investimento em curso, impulsionado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, aliado a uma forte atividade turística, cria a perceção de crescimento, de oportunidade e de movimento. Há obras, há projetos, há atividade.
Mas é precisamente nestes momentos que importa olhar com maior atenção.
Porque nem todo o crescimento é estrutural.
Uma parte significativa da atividade económica atual assenta em fatores conjunturais e temporários. O PRR representa um impulso relevante, mas com prazo definido e execução concentrada num horizonte curto. E, entre o fim deste ciclo e a plena operacionalização do PO Açores 2030, existe um intervalo, um hiato, que não pode ser ignorado.
Esse período poderá traduzir-se numa redução do volume de investimento disponível, com impacto direto na atividade económica, sobretudo nos setores mais dependentes da obra pública e do investimento privado suportado por fundos.
Para muitas empresas, esta realidade não é abstrata. Significa incerteza, dificuldade de planeamento e risco de quebra de atividade. Num tecido económico composto maioritariamente por pequenas e médias empresas, estes momentos de transição são particularmente sensíveis.
A este fator soma-se a evolução recente do turismo.
Depois de um período de crescimento muito significativo, começam a surgir sinais claros de abrandamento. Trata-se de um setor central para a economia açoriana, fortemente dependente de planeamento, promoção, acessibilidade e de fatores externos, sejam económicos, geopolíticos ou energéticos.
E é precisamente aqui que começamos a assistir a uma tempestade quase perfeita que não procurámos prevenir.
Quando juntamos estes elementos, o quadro torna-se mais exigente.
Temos um ciclo de investimento que se aproxima do fim.
Temos um setor económico fundamental em desaceleração.
Mas há ainda uma outra dimensão que não pode ser ignorada: a evolução das finanças públicas regionais.
Nos últimos anos, o nível de endividamento dos Açores tem registado um crescimento significativo, aproximando-se dos 3,8 mil milhões de euros, acompanhado por um défice orçamental relevante. Mais do que o valor absoluto, importa olhar para a tendência.
O aumento da dívida tem sido, em grande medida, associado ao financiamento do défice e ao crescimento da despesa, num contexto em que uma parte importante das receitas continua dependente de transferências externas. Isso deixa pouca margem de manobra para lidar com situações de emergência ou para a adoção de políticas contracíclicas.
A este quadro económico soma-se ainda um fator político que importa considerar com rigor.
Foi, na prática, declarado o óbito interno da atual solução governativa nos Açores. E mais do que uma questão formal, esta realidade tem implicações relevantes.
Significa que a já frágil estabilidade existente é hoje limitada no tempo e tenderá a ficar cada vez mais dependente de tacticismos políticos e eleitorais. Num momento em que a Região enfrenta desafios económicos complexos, esta realidade não é neutra.
Porque a confiança, o investimento e a capacidade de resposta dependem não apenas dos recursos disponíveis, mas também da estabilidade das soluções políticas que os enquadram.
Neste momento, para os Açores, o risco não está apenas em crescer menos.
O risco fundamental está em não salvaguardar o futuro.
Porque mais importante do que aproveitar o momento é garantir que estamos preparados para o que vem a seguir.
E isso exige planeamento.
Exige coordenação.
Exige competência.